História da Ilha Anchieta

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História da Ilha Anchieta - Ubatuba FOTO
FOTO TIAGO QUEIROZ/AE

O turista que faz o passeio pela Ilha Anchieta tem a oportunidade de entrar em contato com a Natureza, mas também com importantes capítulos da História do Brasil.

Na época do descobrimento a Ilha tinha como principais habitantes os índios Tamoios e Tupinambás. Estes a chamavam de Ilha de Tapira, que significa lugar calmo.

Atenuação de um conflito

História da Ilha Anchieta - Ubatuba fotoOs índios tupinambás eram liderados pelo famoso cacique Cunhambebe, responsável pelo tratado da Paz de Iperoig. Este Cacique foi de grande importância numa época em que haviam constantes conflitos entre os portugueses colonizadores e os indígenas.

Uma aproximação de Cunhambebe com os jesuítas missionários José de Anchieta e Manoel da Nóbrega resultou no importante Tratado da Paz de Iperoig de 14 de setembro de 1563.

Com este tratado os conflitos diminuíram bastante e os portugueses ocuparam a colônia de uma forma bem mais tranquila.

A Ilha prospera

Além dos Portugueses, holandeses, franceses e outros europeus chegaram à Ilha Anchieta, além de escravos. Suas atividades principais eram a pesca e da agricultura de subsistência,plantando principalmente café, cana, feijão, milho, mandioca, e com isso o povoado da ilha se desenvolveu.

Foi inaugurada uma pequena igreja, um cemitério, escola e um pequeno e variado comércio cresceu aos poucos.

No ano de 1885 a Ilha passou a se chamar Freguesia do Senhor Bom Jesus da Ilha dos Porcos – e por isso durante muito tempo foi chamada simplesmente de Ilha dos Porcos.

A Ilha se transforma em uma Colônia Penal

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Soldados e Detentos do Presídio

Em 1902 um golpe nos habitantes da então Ilha dos Porcos: o governo resolveu transformá-la em uma Colônia Penal, desalojando e desapropriando cerca de 412 famílias.

A colônia chegou a ser desativada em 1914 com a transferência de presos para presídios de Taubaté. Porém, foi reativada em 1928 para nela serem colocados os presos políticos da ditadura de Getúlio Vargas.

Ainda viviam na Ilha alguns dos habitantes originais, que passaram a dividir os espaços com novos moradores: os soldados e suas famílias.

A Ilha é nomeada em homenagem ao Padre José de Anchieta

No ano de 1934, numa série de homenagens prestadas em função do 4º centenário do nascimento do Padre José de Anchieta a Ilha dos Porcos mudou de nome, passando a homenagear o grande Jesuíta, e o nome que ficou até hoje: Ilha Anchieta.

A mudança ocorreu em 19 de março de 1934 por projeto dos deputados Cirinato Braga e Manoel Hipólito do Rego.

Reformas na Colônia Penal, novos conflitos

No ano de 1942 a colônia penal passou por grandes reformas. Novas celas foram construídas formando um pátio central em fora de retângulo.

 

Este pátio se destinava a área de convivência dos presos, que chegaram a ser de por volta de 453 detentos. Este era o novo Instituto Correcional da Ilha Anchieta, com presos de alta periculosidade.

Esta decisão revelou-se bastante perigosa, pois dentro do presídio se formaram diversos grupos rivais – o que gerou muitos conflitos e uma grande dificuldade para os cerca de 50 policiais controlarem a situação.

Um dos mais famosos presos, e talvez principal líder, era o perigoso João Pereira Lima, o “Pernambuco”, acompanhado dos também perigosos “Mocoroa”, “Daziza”, “China Show” e “Diabo Loiro”.

Havia bastante animosidade entre grupos rivais, que se enfrentavam no pátio, e os cerca de 50 policiais tinham grande trabalho para conter estes conflitos. O principal líder de dos presos era o perigoso João Pereira Lima, o Pernambuco.História da Ilha Anchieta - Ubatuba foto

A chegada de “Portuga” e como isso alterou o destino da Ilha Anchieta

Um dos fatos mais importantes e determinante para o futuro da Ilha foi a chegada de um novo detento: Álvaro da Conceição Carvalho Farto, o famoso “Portuga”.

Inteligente e culto – formado em engenharia, aos poucos começou sua influência sobre outros presos, criando uma estrutura onde cada um tinha suas funções específicas. Com isso conseguiu organizar a vida interna do presídio e passou a exercer grande controle entre os detentos, diminuindo os conflitos.

O plano de Portuga

Estava em curso um plano de longo prazo para uma rebelião. Alegando que estava correndo risco de vida entre os demais presos, o Portuga conseguiu que o diretor do presídio Fausto Sady Ferreira o transferisse para uma cela solitária.

Antes disso o líder-bandido já havia instruído outros detentos comparsas, e alguns deles passaram a buscar amizade com os policiais e familiares, brincando sorridentes com as crianças da ilha e sendo respeitosos.

Com isso, alguns presos receberam funções bastante específicas para com todos os habitantes, construindo uma falsa imagem de gentileza e cordialidade.

  • O barbeiro dos presos era o “Mão Francesa”. Sua missão seria de transferir seu atendimento para a barbearia das Praças, de onde poderia ver o interior do destacamento. Precisava também ganhar dos militares para ter acesso às escalas de serviço e outras informações do destacamento.
  • O detento “Leitão” conseguir convencer o diretor Sady a praticar tiros, pois sabiam que era ótimo atirador. Com muita bajulação e perspicácia, convenceu o diretor a mostrar sua perícia de atirador. Os objetivos eram fazer com que o barulho de tiros ficasse comum na Ilha – algo raro naquele período – e ganhar sua confiança para ter acesso facilitado ao local onde ficavam guardados os armamentos numa sala dentro do quartel.
  • Os presos que cortavam lenha no Morro do Papagaio tiveram a missão de ganhar a confiança dos soldados – com isso a vigilância arrefeceu e apenas dois guardas faziam a escolta de doze presos que saíam do presídio para cortar lenha.

A Ilha estava num perfeito clima de paz e harmonia. Não haviam conflitos entre detentos, e estes por sua vez se mostravam pacíficos, sorridentes, respeitosos.

O clima de tranquilidade contaminou os soldados, que chegam a ter grande camaradagem com os presos, permitindo até o acesso destes às suas casas. O Plano do Portuga estava em sua fase final.

No ano de 1952 o plano foi executado

O detento que trabalhava no almoxarifado se chamava “Fumaça”. Este conseguiu se informar sobre o dia exato do mês em que a lancha Ubatubinha vinha de Santos trazendo mantimentos para a ilha. Por ter um bom porte, esta embarcação seria usada na fuga. O dia: 20 de junho de 1952.

Na véspera, dia 19, ocorreu o assassinato do preso “Dentinho” que estava sendo acusado de “dedurar” o plano. O boato que os presos espalharam era que Dentinho vinha comentando há tempos sobre sua vontade de fugir – e deram sumiço no corpo, enterrando-o bem fundo na Praia do Bananal.

Com isso eliminaram um perigo ao plano de fuga, e conseguiram um excelente efeito colateral para o plano de fuga: com muitos policiais envolvidos na captura do falso fujão, diminuía o efetivo de policiais em serviço no presídio, facilitando a ação.

No dia 20 iniciou-se a ação.

Os 12 presos que saíram para cortar lenha no Morro do Papagaio eram escoltados pelo sargento Theodósio Rodrigues dos Santos e pelo soldado Geraldo Braga.

Um grupo bem maior, composto de 110 presos, seguiu para a Ponta da Cruz onde recolheria a lenha cortada no dia anterior, também com escolta de apenas dois soldados: Hilário Rosa e Manoel França Ayres, acompanhados de dois guardas civis desarmados, Higino Perez e Helio Barros.

O preso João Pereira Lima – um dos chefes da rebelião – seguia nesse grupo, e de repente retira o fuzil do soldado Ayres. O clima de cordialidade que havia sido criado fora tão bem feito que Ayres pensou a princípio tratar-se de brincadeira, e reagiu do com brandura.

E então os soldados foram dominados quase sem resistência, e foram amarrados em uma árvore. O soldado Hilário que seguia à frente do grupo se aproximou mas foi morto friamente por Pereira Lima com um tiro de fuzil no rosto.

O tiro teria que ser dado de qualquer maneira, pois no plano um estampido sinalizaria ao grupo dos 12 lenhadores para que imobilizassem os soldados Theodózio e Braga.

O tiro não chamou a atenção de soldados no presídio, pois agora eram frequentes nesse horário em que o Diretor praticava tiros – conforme inteligentemente imaginado pelo Portuga. Então, os 12 lenhadores atacaram os policiais com golpes de machado, matando-os e tomando suas armas de fogo.

O ataque ao quartel foi feito de surpresa, iniciado pelo tiro desferido por Pereira Lima, que matou pelas costas o soldado armeiro Otávio dos Santos.

Os policiais tentaram chegar à sala de armas, porém outro detento alcunhado China Show mantinha todos afastados através de uma janela lateral. Os bandidos estavam armados até os dentes e desceram até o presídio, onde atacaram a casa do diretor Fausto Sady e do Comandante do Destacamento, Tenente Odvaldo Silva.

O bandido China Show, após ferir o diretor Sady, foi até a casa do chefe de disciplina, Portugal de Souza Pacheco e o matou diante da esposa e filhos.

A maior rebelião e o maior fracasso

Esta rebelião era naquela época a maior na história dos presídios em todo o mundo, e o massacre foi grande. Mas o próprio tamanho da rebelião foi a causa de seu fracasso.

Descontrolados, os detentos queriam destruir tudo no presídio, e atearam fogo nos pavilhões.

Nisso a lancha Ubatubinha se aproximava para entregar mantimentos, mas sua tripulação percebeu uma fumaça preta que surgia da ilha. Imediatamente, a lancha fez a volta e retornou ao continente, e estava perdida a grande embarcação que daria fuga a todos.

Pereira Lima tentou ainda efetuar a fuga em uma embarcação menor, a lancha do presídio de nome “Carneiro da Fonte”, mas esta comportava apenas 50 pessoas e haviam 90 detentos em fuga. Houve luta, com muitos sendo jogados para fora da embarcação pudesse seguir em frente.

Ainda assim a falta de experiência do piloto improvisado levou a lancha a encalhar na praia rasa de Ubatumirim. Na ilha, outros que não embarcaram na lancha, fugiram em canoas.

No entanto, o soldado Simão Rosa da Cunha conseguiu nadar até o continente e fez com que a notícia sobre a rebelião chegasse até o Batalhão Militar de Taubaté, e no dia seguinte chegaram à ilha muitos reforços policiais vindos do Vale do Paraíba.

Foram recapturados 129 detentos fugitivos entre eles, o chefe “Pereira Lima”, enquanto outros seus desapareceram sem que nunca mais se ouvisse falar deles.

Os rebeldes restantes na ilha ficaram sob o comando do preso Francisco Faria Junior, que se solidarizou com os policiais imobilizados e trancafiados nos pavilhões. Soltaram todos, na esperança de abrandar suas penas.

E o líder intelectual da rebelião, o “Portuga”, foi encontrado morto na Ilha, dizem que por já ter antes problemas cardíacos.

O fim do presídio

A revolta selou o fechamento do presídio, que foi definitivamente desativado em 1955.

Hoje as famosas Ruínas do Presídio são visitadas por milhares de turistas todos os anos.

m 29 de março de 1977, o Decreto Estadual 9.629 transformou a ilha em Parque Estadual com área de 1.000 hectares abrangendo a Ilha Anchieta (828 hectares) e as ilhas das Palmas, das Cabras e a Laje das Palmas.

Todos os anos no dia 20 de junho a Secretaria de Turismo de Ubatuba promove um encontro de cerca de 250 pessoas, chamados “Filhos da Ilha”, que são os descendentes e nascidos na ilha na época da rebelião. Nesta ocasião é prestada uma homenagem aos Heróis mortos durante a rebelião.

No confronto com os detentos do Presídio da Ilha Anchieta, faleceram os seguintes funcionários:

Militares:

  • Sargento Melchíades Alves de Oliveira
  • Cabo Hilário Rosa
  • Soldado Carmo da Silva
  • Soldado José Eugênio Paduan
  • Soldado Bento Moreira
  • Soldado Benedito Damásio dos Santos
  • Soldado José Laurindo
  • Soldado Octávio dos Santos

Civis:

  • Oswaldo dos Santos
  • Portugal de Souza Pacheco

A Ilha Anchieta hoje

Hoje em dia, a Ilha Anchieta mudou totalmente seu perfil, passando a ter sua fauna, flora e riquezas históricas protegidas pelo Parque Estadual da Ilha Anchieta.

Na sede do parque, encontramos muitas informações e painéis fotográficos, monitores de turismo para trilhas ecológicas e culturais, e a pequena capela foi restaurada.

As instalações do antigo presídio, em ruínas, atraem o público para viver a atmosfera onde aconteceram importantes fatos para nossa história.

E além dos turistas, mergulhadores, pesquisadores e outros estudiosos procuram a Ilha Anchieta durante todo o ano.

 

Saiba mais sobre a Ilha Anchieta:

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